Os alunos da periferia que aprendem a ‘pensar como a ONU’ – Guajara Hoje

Os alunos da periferia que aprendem a ‘pensar como a ONU’

Jovens erguem os cartazes de 'seus' países para sinalizar que querem se manifestar

Jovens erguem os cartazes de ‘seus’ países para sinalizar que querem se manifestar
Secretaria Municipal de Educação

“Alguma delegação gostaria de se pronunciar? Por favor, ergam suas placas. A mesa reconhece a delegação de Portugal”, diz a mediadora. “Boa tarde, senhores delegados”, inicia a representante de Portugal. “A violência contra imigrantes é um dos subtópicos que devem ser abordados. Eles muitas vezes não tiveram escolha. Foram forçadamente tirados de seus países por causa de conflitos internos e externos. Seria importante chegarmos a um consenso sobre isso.”

O diálogo acima, mais familiar a sessões da ONU em lugares como Genebra ou Nova York, na verdade ocorreu em uma escola pública em uma das áreas mais vulneráveis de São Paulo, onde um grupo de 35 jovens passou um semestre aprendendo sobre política externa global — e formas de debatê-la em público e buscar consenso.

O ápice desse processo ocorreu no dia 22 de novembro, quando parte desses jovens da Escola Municipal Oswaldo Aranha Bandeira de Mello, em Cidade Tiradentes (extremo leste da cidade), participou de uma sessão simulando a Assembleia Geral das Nações Unidas, em que delegações de diferentes países têm de dialogar e encontrar pontos em comum para produzir resoluções conjuntas, dentro de regras diplomáticas.

Nessa simulação final, os alunos assumiram o papel de delegados de nove países escolhidos por eles — África do Sul, Argentina, Canadá, Turquia, EUA, Japão, Nigéria, Portugal e Índia —, tendo que replicar na sessão os argumentos que esses países costumam defender de fato na política externa da vida real.

Os dois alunos “representantes” dos EUA, por exemplo, tinham de apresentar argumentos que justificassem a restrição americana à entrada de imigrantes, mesmo que os jovens pessoalmente não concordassem com elas. Já a delegação canadense defendia argumentos mais favoráveis à ideia de fronteiras abertas para a imigração.

 

Jovens participando de simulação da ONU na EMEFM Owaldo Aranha Bandeira de Mello

Jovens participando de simulação da ONU na EMEFM Owaldo Aranha Bandeira de Mello
BBC

“A mesa se encerrará em uma hora, e esperamos que até lá vocês tenham uma proposta de resolução”, disse aos alunos, já na reta final, uma das três mediadoras do evento. Cada delegação teve um minuto para apresentar seus argumentos, a partir dos quais foi redigida a “resolução” tratando de atendimento e apoio a migrantes em fronteiras.

“Por consenso, essa resolução passa”, afirmou a mediadora após todas as delegações votarem a favor do texto, concluindo a 16ª e última sessão do projeto.

‘Tempo de fala’

“No começo das sessões, esses jovens eram esbaforidos, se atropelavam para falar, mas passaram a respeitar o tempo de fala dos colegas, a negociar encontrando um ponto comum dentro de divergências, para atender a coletividade, e melhoraram sua oratória de uma forma marcante”, diz à BBC News Brasil Fernanda Magnotta, que dá aula de Relações Internacionais na faculdade Faap e é professora voluntária no projeto.

Ao longo das 15 aulas antes da simulação da Assembleia Geral, Magnotta abordou conceitos de política externa, funcionamento de países e organizações multilaterais, regras e procedimentos de sessões diplomáticas e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável — os ODS, objetivos acordados em negociações internacionais para orientar políticas públicas de cada país signatário, Brasil entre eles, em favor da erradicação da pobreza, redução de desigualdades sociais, segurança alimentar, igualdade de gênero, crescimento sustentável e proteção de ecossistemas, entre outros temas.

A professora diz que a parte aplicada das aulas envolvia desenvolver habilidades como negociação, oratória e formulação de políticas públicas.

 

Simulações de sessões da ONU seguem um modelo elaborado por Harvard

Simulações de sessões da ONU seguem um modelo elaborado por Harvard

AFP/BBC Brasil

“Eles foram ficando super à vontade de falar em público, com uma comunicação mais assertiva, clara e não violenta — mesmo diante de divergências, eles tiveram de se acomodar em um decoro (diplomático).”

O projeto, chamado Monuem (Modelo da ONU para o ensino médio), é baseado em um modelo criado há cerca de 40 anos pela Universidade Harvard, para estimular alunos a debater, falar em público e escutar os demais. Já existe em algumas instituições privadas e é promovido pelo Escritório de Representação do Itamaraty em São Paulo (Eresp) em outras sete escolas da rede estadual paulista. Com a organização social Global Attitude, o semestre recém-concluído na Oswaldo Aranha Bandeira de Mello, para alunos do 8º ano do fundamental ao 3º ano do ensino médio, foi o piloto na rede municipal de ensino.

“É também a primeira escola da periferia da cidade, em um lugar desfavorável geograficamente e também desassistido”, diz Magnotta.

Cidade Tiradentes, onde fica a escola Oswaldo Aranha, tem a mais baixa idade média ao morrer de toda a cidade de São Paulo, segundo o Mapa da Desigualdade 2019, compilado pela Rede Nossa São Paulo. Moradores dali têm morrido, em média, com 57,31 anos. Em comparação, em Moema, bairro nobre da capital, a morte ocorre em média aos 80,57 anos.

O bairro periférico tem também a menor taxa de emprego formal da cidade, em proporção à população em idade ativa.

“Saí das aulas com a certeza de que tudo na vida é uma questão de oportunidades: todos têm algo a oferecer”, agrega Magnotta. “São jovens interessantes, amadurecidos pela vida e que tiveram a curiosidade aguçada.”

 

'Trazer essa dimensão do global para dentro da escola pública significa dar cidadania a esses jovens', diz embaixadora 'Dimensão de mundo'

‘Trazer essa dimensão do global para dentro da escola pública significa dar cidadania a esses jovens’, diz embaixadora ‘Dimensão de mundo’
Secretaria Municipal de Educação

Para além das diferenças regionais da cidade e do país, “os jovens brasileiros estão muito pouco expostos à dimensão internacional”, afirma a embaixadora Irene Vida Gala, subchefe do Eresp e que participou do evento em 22 de novembro.

“Dizem que países muito grandes não têm essa compreensão do externo. Se você pensar que a nossa população imigrante é 0,4%, nossos jovens não têm o interesse de falar outras línguas, de pensar no que acontece lá fora. São pessoas que estão sendo criadas pela escola sem ter esse processo global”, opina a diplomata à BBC News Brasil.

“Trazer essa dimensão do global para dentro da escola pública significa dar cidadania a esses jovens, dar a compreensão de um mundo maior que para eles é absolutamente estranho. Nessa nossa primeira turma, não havia entre 40 alunos nenhum que já tivesse ido para o exterior. Havia só um imigrante venezuelano. Esse componente externo falta no dia a dia desses jovens, para além do aspecto de (desenvolver) habilidades como falar em público e perder a vergonha. Faltava isso na escola pública, e ainda falta, porque nossa iniciativa é micro, mas a gente precisa chegar. É uma forma quase lúdica de inseri-los no mundo.”

Foi a proposta de inserção no mundo que estimulou Victoria Oliveira Costa, 17 anos, a participar no projeto — ela atuou na simulação como “representante” de Portugal. “Eu queria conhecer culturas e entender por que os países são do jeito que são”, afirma.

 

 'Eu queria conhecer culturas e entender por que os países são do jeito que são', afirma Victoria, na foto erguendo placa do país que 'representava', Portugal

‘Eu queria conhecer culturas e entender por que os países são do jeito que são’, afirma Victoria, na foto erguendo placa do país que ‘representava’, Portugal


Secretaria Municipal de Educação

“Eu participei porque queria perder a timidez”, diz seu colega Paulo Henrique Vieira de Jesus, 17, que representou a Argentina. “Ainda não perdi, mas está sendo um processo. Antes, subir num palco (como o em que foi feita a simulação) seria impossível para mim. Também descobri a importância dos imigrantes para os países, sobre a sua cultura.”

Uma das participantes mais novas da turma, Deborah Santos Albiach, 14 anos, conta que aprendeu a importância de posicionar-se com calma e embasamento, para sentir-se empoderada para falar. “Se eu não tivesse estudado muito, teria acabado ficando quieta durante o debate. E consegui me controlar, falar com calma e sem rir”, diz ela.

“É importante essa capacidade de argumentar e assumir posições que nem sempre são as suas, e negociar com seu opositor para fazer uma resolução conjunta para um problema”, defende Bruna Gonçalves, estudante de Direito que atua no projeto como mediadora, representando as instâncias neutras de negociação da ONU. “Tem muita gente criticando direitos humanos sem saber o que são, então precisamos debater. Me inscrevi como voluntária porque é uma forma de passar isso para a próxima geração.”

Para Magnotta, a tendência inicial dos alunos “é ver uma sessão dessas como um teatro, em que você tem que desempenhar um papel e em que o melhor é quem fala mais bonito ou aparece mais”. Aos poucos, eles vão percebendo que o conteúdo que eles falam é mais crucial. “É, na verdade, garantir que você reflita sobre os problemas reais (do mundo) e como pode agir a respeito deles.”

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