Pinturas de alunos do Ifro de Guajará-Mirim serão apagadas pela direção da instituição

Pinturas que serão apagadas das paredes do Ifro de Guajará-Mirim — Foto: Fabiano do Carmo/ G1

O prédio do Instituto Federal de Rondônia (Ifro) do campus de Guajará-Mirim (RO) será pintado. Com isso, obras feitas por alunos em um projeto que começou em 2017, para trabalhar a liberdade criativa dos discentes serão apagadas das paredes da instituição. Essa decisão é vista por professores como censura por parte da direção do Ifro.

“A direção começou a apontar reclamações de um ou outro servidor que tem um pensamento mais conservador, eles me chamaram para conversar e falaram para não fazer mais essas pinturas”, disse Carlos Bosquê, professor de artes e responsável pelo projeto de pintura.

As obras que serão apagadas homenageiam artistas como Frida Kahlo, Michelangelo, Modigliani e Matisse, com alguns quadros que fazem arte a partir da nudez humana. Segundo o professor responsável pelo projeto, o conselho escolar tomou a decisão de apagar as pinturas sem conversar com os docentes ou alunos.

“Simplesmente chegaram e falaram que teriam que pintar porque já tinham comprado o material e as pinturas já tinham dado muita polêmica. Eu falei que eles tinham a oportunidade de conversar comigo antes e não decidir impondo as coisas de cima para baixo”, diz Carlos.

Segundo o docente, os alunos começaram a ver a escola como galeria. E a arte melhorou o desempenho de alunos tímidos, que começaram a se expressar nas aulas.

“O aluno depois que começa a pintar ele se liberta, já que a arte vem emancipando os pensamentos, motivações e criatividade”, afirma.

O projeto

O projeto começou em 2017 com a autorização da direção do campus. O objetivo era que os alunos contextualizassem, nas paredes, obras de arte de grandes pintores. As reproduções das pinuturas de Frida, Michelangelo, Modigliani e Matisse começaram no final de 2018 e ainda não foram concluídas. Carlos Bosquê tem o receio que os alunos deixem se expressar por conta dessa decisão da escola.

“Os alunos tiveram um parecer favorável do diretor de finanças. Que a forma de pintar que estava sendo feita [pelos alunos] ia dar menos gasto para instituição porque ia tirar a parede branca que sujava rápido”, lembra o professor.

Releitura da obra ‘Nu Deitado’ de Modigliani — Foto: Fabiano do Carmo/ G1

O presidente da Academia Rondoniense de Letras, Júlio Olivar, se manifestou publicamente sobre o assunto. De acordo com ele é inadmissível censurar arte, ainda mais no ambiente educacional.

“Tenho percebido que há uma posição mais rígida em relação a expressão de pensamento de uma forma geral e isso é muito preocupante. Eu espero que o Ifro possa rever seus conceitos”, diz Júlio.

Posicionamento da direção

A direção do Ifro, em Guajará-Mirim, informou que o campus sempre valorizou a liberdade de expressão e que não está censurando as pinturas feitas pelos alunos do professor Carlos Bosquê, e que a pintura do prédio já estava prevista, já que a última foi em 2015.

A direção ainda informou que o projeto do professor de artes vai continuar, só que com uma metodologia diferente e mais econômica, onde o conselho vai adiquirir telas e materiais de pintura para que a arte seja exposta.

“Posteriormente nós vamos criar um livro com todas essas pinturas e com depoimentos dos alunos sobre o porquê que eles fizeram aquela imagem. O livro será publicado como um ônus para a instituição”, comenta Elaine Oliveira, diretora-geral do campus.

De acordo com a direção do campus, os recursos são limitados e por isso não é possível repintar as paredes todos os anos para os alunos fazerem pinturas.

Please follow and like us:
error0

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *