Turquia: refugiado sírio vive preso em aeroporto há seis semanas

Mohammed Younes está detido em aeroporto turco

Mohammed Younes está detido em aeroporto turco

Arquivo pessoal

Uma sala do aeroporto de Istambul virou há seis semanas a casa de Mohammed Ajlani Younes, um sírio de origem palestina que foi barrado ao tentar entrar na Turquia pelos trâmites burocráticos.

Younes chegou no aeroporto de Istambul em 26 de maio, em um voo que partiu de Beirute, e pediu asilo ao governo turco, mas a solicitação acabou rejeitada.

“Voava para Istambul para pedir asilo na Turquia. Mas, como viajava com um passaporte iraquiano falso, não me deixaram entrar”, disse Younes em entrevista à Agência Efe.

Younes, porém, também não pode voltar ao Líbano.

“As autoridades turcas já tentaram, me colocaram em um voo para Beirute, mas lá eles se negam a me aceitar. Agora estou aqui, preso, sem solução. Iria para qualquer país, mas não posso sair daqui”, lamentou o sírio.

Para sobreviver, Younes tem contado com a ajuda dos funcionários do aeroporto. Ainda assim, as condições são bastante precárias.

“Me dão sanduíches de queijo, não há outra coisa. Para dormir, há alguns sofás”, resumiu o refugiado.

A Anistia Internacional (AI), que denunciou o caso de Younes, afirmou que a situação pode afetar a saúde do refugiado e pediu à Turquia que permita que ele entre no país, já que a volta ao Líbano também representaria um risco.

Younes, de 27 anos, vivia até o início da guerra civil síria no campo de refugiados palestino de Yarmouk. Em 2012, ele fugiu com a família para o Líbano, onde começou a trabalhar como técnico de ar-condicionado.

Diante da deterioração da situação dos refugiados no Líbano e da pressão das autoridades para devolvê-los à Síria, Younes decidiu tentar asilo na Turquia.

A advogada do refugiado, Duygu Inegöllü, disse hoje à Agência Efe que a Turquia reconhece aos sírios o direito à “proteção temporária”, mas só se eles chegarem diretamente da Síria, não passando por um terceiro país, como é o caso de Younes.

No entanto, exatamente por ser sírio e ter direito a essa proteção temporária já concedida a 3 milhões de sírios que estão na Turquia, as autoridades de imigração do país se negam a analisar um pedido formal de asilo de Younes.

“Estamos agora em um vazio legal”, lamentou a advogada.

“Não posso pedir asilo internacional e nem recorrer à proteção temporária para sírios. Não há uma decisão formal sobre o caso da qual eu possa recorrer, só um memorando interno para os funcionários do aeroporto”, acrescenta Inegöllü.

Sobre a recusa do Líbano em receber Younes de volta, a advogada afirmou que esta é uma prática comum. A Turquia também não aceita o retorno de refugiados caso eles tenham deixado o país voluntariamente.

A Agência Efe tentou ouvir o governo da Turquia sobre a situação de Younes, mas o escritório da Direção de Imigração em Istambul disse que não comenta casos individuais.

A situação de Younes não é única. Inegöllü representou muitos refugiados de outros países que chegaram ao aeroporto de Istambul e foram obrigados a passar dias ou semanas no local.

Nestes casos, a advogada apresenta um pedido de asilo internacional, normalmente negado em primeira instância, o que permite que Inegöllü entre com recursos contra a decisão. Normalmente, o resultado é positivo.

Em um dos casos, Inegöllü contou que conseguiu que um refugiado de outro país fosse autorizado a entrar na Turquia depois de nove meses vivendo no aeroporto. No entanto, a situação de Younes é mais complicada por ele ser sírio.

“Não há um procedimento que eu possa seguir e nem tribunal para recorrer”, explicou a advogada.

Younes também não pode viajar para nenhum outro país. Além de não ter os documentos necessários, ele seria enviado de volta por voar de um “país terceiro seguro”, caso da Turquia.

Atualmente, o jovem não está nem na Turquia, nem no Líbano. Vive em uma área extraterritorial, uma espécie de terra de ninguém internacional, sem leis e sem futuro.

“Todos têm direito à proteção, porque é um direito internacional, além de leis ou códigos concretos, e a Turquia deveria reconhecer isso”, protestou a advogada.

“Eu iria para qualquer país. Peço para que algum país me acolha”, disse Younes.

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