Ensino híbrido em SP após pandemia pode aprofundar desigualdades – Guajara Hoje

Ensino híbrido em SP após pandemia pode aprofundar desigualdades

Levantamento indica 25% de adesão às aulas a distância
Divulgação/Nappy

Modalidade aplicada às pressas durante a pandemia do novo coronavírus em todo o Brasil, a educação a distância seguirá – em partes – no Estado de São Paulo. Em recente coletiva de imprensa, Haroldo Rocha, secretário-executivo de Educação, afirmou que o ensino híbrido, uma mescla de aulas presenciais e conteúdos online, será implementado após o surto da covid-19 se atenuar. Por enquanto, a medida esbarra na acessibilidade e pode agravar desigualdades já existentes em relação à educação.

Um levantamento realizado pela Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) indica que só 25% dos alunos da rede pública paulista estão assistindo às aulas a distância durante a pandemia. Pelos dados do Governo do Estado, em maio, 1,6 milhão – menos da metade dos 3,6 milhões de estudantes – usou as plataformas de ensino online.

“Acredito que ocorrerá a maior exclusão educacional dos últimos tempos. [A medida] acentuará mais ainda as desigualdades. Poderá gerar evasão, com estudantes desistindo de estudar porque o ponto de partida foi diferenciado”, avalia Maria Izabel Azevedo Noronha, presidente da Apeoesp.

Com o plano do ensino híbrido ainda em fase embrionária, o Governo garante a manutenção do Centro de Mídias, ferramenta introduzida durante a pandemia, que reúne aplicativos e dois canais abertos de televisão, e que esta alcançará, com a internet patrocinada, a totalidade dos alunos da rede pública paulista.

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No entanto, segundo Bebel e os relatos de professores e pais ouvidos pela reportagem, a falta de ferramentas, tanto tablets e celulares quanto o sinal disponível de internet, tem atrapalhado na adesão ao ensino a distância.

Governo garante atingir todos alunos com plataforma
Roberto Costa/Código19/Estadão Conteúdo

A gestora do sindicato diz que a secretaria de educação ignora dificuldades vividas por professores, alunos e pais, pela falta de aparelhos e de acesso ou pelo desestímulo aos estudantes neste contexto, e relembra que mais de 700 mil estudantes paulistas vivem abaixo da linha da pobreza, e não dispõem de estrutura para as atividades online.

Para ela, o Governo do Estado deveria ter feito um diagnóstico sobre o acesso à Internet e a equipamentos como celulares e tablets entre os alunos da rede pública. “O direito à Educação, sem oportunidades iguais, levará à disparidade educacional. Estudantes que de alguma maneira conseguiram acesso às tecnologias de informação e comunicação indubitavelmente avançarão mais e melhor que os outros que não puderam”, afirma.

 

Acesso à internet é precário em periferias e zonas rurais

Distrito de Marsilac possui apenas duas antenas de celular
Reprodução/SOS Marsilac

 

O cenário vai além das dificuldades impostas pela falta de ferramentas e a mudança repentina: mais de 40 milhões de brasileiros não possuem acesso à internet – destes, 4,8 milhões são crianças e adolescentes. Embora a gestão estadual garanta patrocinar internet a todos os estudantes, não raros são os exemplos como o de Luzaine Ferreira, mãe de dois adolescentes e moradora do distrito de Engenheiro Marsilac, no extremo sul da cidade de São Paulo, que carece de sinal de telefonia e internet.

A mãe afirma que, pela pandemia, o ano letivo foi perdido para Vitor Henrique, 16 anos, e Vinicios Hebert, 15 anos, que têm muitas dificuldades no acesso aos estudos pela internet. “Eles não conseguem enviar os trabalhos nem concluir as aulas. O sinal está travando o acesso do envio no grupo. Eles não conseguem dar continuidade às provas e aulas”, diz Luzaine. A única televisão da casa poderia ser uma saída aos garotos, mas está quebrada – e mesmo quando funcionava apresentava falhas.

Luzaine e os filhos Vitor e Vinicius, moradores de Marsilac
Arquivo pessoal

A falta de sinal é o grande problema dos mais de 8 mil habitantes de Marsilac. O sinal é inexistente quase o dia todo e, quando aparece, é de péssima qualidade e só em determinados pontos do distrito. Isso se deve ao fato de Marsilac, maior distrito em extensão (200 km²) da capital paulista, possuir apenas duas antenas de celular. Como comparação, a Vila Leopoldina, região nobre da zona oeste paulistana, com população quase cinco vezes maior que Marsilac mas uma área muito menor (7,2 km²), tem 34 torres – 17 vezes mais que o distrito da zona sul.

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Especialistas em telecomunicações ouvidos pela reportagem do R7 explicam que o acesso à internet é inexistente ou precário em várias cidades, e há muito o que se fazer para torná-lo universal e igualitário. Luciano Stuntz, presidente da Abrintel (Associação Brasileira de Infraestrutura para as Telecomunicações), comenta que a pandemia acelerou transformações digitais, inclusive na educação. “Para dar certo, no entanto, um dos desafios é o acesso democrático aos recursos e à promoção da conectividade a todos, para que o ensino a distância não amplie desigualdades”, pondera.

Stuntz acredita que, além do acesso a equipamentos para o estudo, como tablets e computadores, seria necessário que o poder público modernizasse as leis vigentes de telecomunicações nos municípios para viabilizar a cobertura em áreas onde existem demandas e motivação econômica. “Como consequência, muitos moradores de bairros periféricos em todo o país ainda sofrem com a ausência ou falta de qualidade do sinal de internet móvel, por falta de infraestrutura de telecomunicações”, ressalta.

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O engenheiro de telecomunicações Julian Portillo avalia que, principalmente nas áreas rurais e periferias – “as regiões que mais sofrem nesse tema” –, a aula remota pode ser uma medida pouco imaginável: “Fazer com que as aulas cheguem a todos é um desafio enorme, considerando a dependência do acesso à internet. Nem todos conseguirão assistir ou acompanhar as aulas, e muitas crianças dependerão, por exemplo, do celular, computador ou tablet dos pais ou responsáveis para assistir às aulas”.

Como explica Julian, certas regiões não possuem infraestrutura suficiente em redes fixas e móveis. Além de Marsilac, há outros bairros na capital paulista, por exemplo, que mal oferecem cobertura celular: apesar da população vasta, Ermelino Matarazzo e Parelheiros têm, respectivamente, somente 7 e 12 antenas de celular, as chamadas Estações de Rádio Base.

“É justamente ali (nos bairros mais pobres ou zonas rurais) onde a cobertura de redes fixas e móveis é mais precária”, acrescenta. O engenheiro sugere, ainda, que o poder público firme acordo com as operadoras para subsidiar o acesso à internet neste momento.

Alunos com deficiência têm mais dificuldades no EAD

Outra dificuldade que se soma às propostas do EAD se dá com os alunos com deficiências como autismo e TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Neste contexto o ensino presencial é fundamental, e assim amplificam-se as dificuldades. No ano passado, eram mais de 7.000 alunos autistas no ensino do Estado. Mães e professoras relataram ao R7 sobre o que têm vivido com a educação a distância na pandemia.

Liliane Serrato tem três filhos autitas – de três, 14 e 18 anos, cada um em uma modalidade de ensino (educação infantil, educação especial e ensino superior). “Os três estão tendo muitas dificuldades. O que percebemos? Todas as pessoas estão prejudicadas [na pandemia], mas muito mais as pessoas com deficiências. E, dentro desse leque, a pessoa com autismo”, conta.

Liliane e a família, na formatura do filho mais velho: ‘motivo de muito orgulho’
Arquivo pessoal

Serrato é professora e, por isso, tem conseguido lidar com as barreiras impostas pela educação a distância, mas percebe problemas. “A comunicação precisa ser adaptada, com habilidades acadêmicas de observação, pra sentar, acompanhar e ter um reforço por aquilo que está passado. Principalmente com os mais severos. No meu caso, tive dificuldade com os três”, diz ela, que tem pensado em trancar a faculdade do filho mais velho – mesmo tendo uma condição mais leve do autismo, ele passou por muitas dificuldades nos estudos na pandemia.

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Uma professora da gestão municipal, que optou por não se identificar, avalia que o período da quarentena tem sido “um real tormento para o processo inclusivo na educação formal”. No plano presencial, segundo ela, a inclusão já andava a passos lentos. O ensino remoto, praticado nesta pandemia, é “um potencializador da exclusão de crianças, jovens e adultos com deficiência”, avalia.

Carol Caria, mãe de Raul, de seis anos, afirma que o filho autista tem sofrido muito: “Por mais que eu me esforce, ele retrocedeu este ano”. Embora não esteja na rede pública estadual, comenta, as dificuldades enfrentadas por Raul são similares às de outros alunos autistas mais velhos.

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Bebel, presidente da Apeoesp, considera que a educação especial é um dos grandes desafios da educação pública no país, e que, sem o atendimento presencial, a vida dos pais e alunos torna-se ainda mais difícil. “Sentimos falta de uma maior orientação técnica por parte das equipes que trabalham com esse público para que os pais possam cuidar deles melhor”, diz.

Caria relata que viu muitas outras mães de alunos autistas sofrendo os mesmos problemas. “Com alguns autistas [de condições] mais leves, as mães adaptam conteúdos em casa para tentar. Mas é uma tortura, pois fica nítida a dificuldade. Como mãe de uma criança autista estou muito preocupada. Vou começar a pagar profissionais, não tem jeito”, lamenta.

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